O desafio de ser uma startup
Mercado parece ainda hostil para criação e sucesso do modelo, mas é importante procurar por espaço
13 Fevereiro 2015  |  12:35h
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Wagner Marcelo Machado
Autor: Wagner Marcelo Miranda Machado

A Internet, como um todo, permitiu que empresas pudessem explorar novas fronteiras, principalmente quando se tem um produto desenvolvido inteiramente baseado nela com potencial de ser utilizado no mundo todo. A tecnologia móvel também colaborou muito nesse processo, algumas pessoas hoje tem seu primeiro contato com a Internet via mobile e não mais via desktop ou notebook, elas se comunicam via whatsapp, jogam, baixam apps e muitas vezes não se dão conta que a Internet possibilita toda essa comunicação. Mas para o surgimento, expansão e aquecimento do mercado de startups não foram apenas as tecnologias que servira como contribuintes, o surgimento do conceito de investimento anjo no país também foi um grande aliado.

Por outro lado, é preciso ter em mente que a Internet e o acesso a novas tecnologias dá a impressão que todos podem empreender e isso não é real. A criação de um negócio é apenas a ponta do iceberg, pois, após essa fase, é necessário muita dedicação, visão, saber trabalhar em equipe, trabalhar no acesso a mercado. São várias características que precisam estar alinhadas, senão o negócio não passa de uma ideia, um site ou um aplicativo, não gerando receita. Ainda aqui no Brasil, onde são poucas as oportunidades geradas. Vemos muita euforia no ecossistema e pouco resultado, temos somente alguns poucos cases de sucesso que dá pra se contar nas mãos. Falta projeto maduro, com uma visão 360 de negócios. Além disso, falta investidor profissional, que entenda o mercado tecnológico, investir em startup, principalmente em projetos disruptivos, não é a mesma coisa que investir em uma padaria ou em imóveis.

O desenvolvimento de startups é muito importante, porque elas abrem mercados inexplorados e a um custo baixo. Algumas empresas, inclusive, solicitam consultoria de como incorporar o ambiente de startups dentro de suas organizações e isso é muito interessante. Elas agora precisam estar atentas a este novo tipo de negócio, porque podem adquiri-los para compor sua carteira de produtos, dando uma vantagem competitiva significativa. Da mesma forma que o mercado não tem um ambiente favorável de oportunidade, podemos ver que ainda há empresas que, ao invés de adquirirem as startups, tentam plagiar projetos desenvolvidos, por falta de uma cultura de fusão e aquisição entre os negócios no País. Isso ainda é considerado coisa para grandes, dizem os desavisados.

Outro grande problema está relacionado com os próprios empreendedores das startups. Existe certo interesse por parte das empresas de estarem mais na mídia, mas algumas vezes isso se reflete a vaidade do empreendedor e falta um planejamento de marketing em conjunto com uma boa assessoria de comunicação. O que quer dizer que os empresários buscam visibilidade, mas esquecem de planejar o retorno de todo o investimento e como fazer a retenção do público atingido, convertendo em crescimento da empresa. É necessário um planejamento de longo prazo, só que ainda é frequente que eles sejam feitos forma emergencial e pontual. Acima de tudo, ainda não existe maturidade o suficiente que represente quebra de paradigmas no ecossistema brasileiro, existem sim várias iniciativas que seguem uma tendência de mercado, mas falta pesquisa de base para que algum dia exista a quebra de paradigmas. Pelo lado positivo, o fato mais relevante foi a criação de apoio às startups dentro de várias esferas do governo, agora é necessário o trabalho junto a pesquisadores e universidades para que os trabalhos tenham um cunho comercial e derrubem a barreira invisível que existe entre a academia e o empresariado.

Para os empreendedores, digo que não existe uma forma correta de criar uma startup, conheço empresas que foram criadas para atender a uma demanda de um único cliente, mas depois descobriram que existia um mercado em potencial e ofereceram o mesmo produto para todo um setor que acabou comprando a ideia do produto, já outros pensam em resolver um próprio problema e acabam vendo que existe um mercado em potencial. Enfim, não existe uma única forma, mas sugiro que independente de como surja a ideia é necessário criar mecanismos para um mais crescimento exponencial e que tenha como meta a internacionalização. Sem se esquecer de que é necessário entender a dor do cliente e estar disposto a resolver seus problemas. Não adianta mais tentar vender um produto 100%, é necessário colocar no mercado e ir ajustando de acordo com o feedback do cliente, lance sempre updates de novas funcionalidades, novos serviços, produtos, assim você mostra que não está acomodado no mercado.

Apesar de todos os desafios que existem, nosso mercado está em ascensão, mas é preciso criar bases sólidas para que isso não seja uma onda passageira. Precisamos de uma formação mais ampla na universidade para que alunos sejam capazes de despertarem sua criatividade e não apenas serem ferramentas especializadas. Só para exemplificar, hoje formamos engenheiros para apertarem parafusos de projetos, em sua maioria, desenvolvidas em empresas multinacionais ou engenheiros para trabalharem em instituições financeiras.

Wagner Marcelo Miranda Machado é coordenador do grupo de Startups na PUC-S, sócio diretor da Intellecta, centro de estudos avançados e membro do comitê de investimento e inovação da FIESP/CJE.
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